Série de televisão asiático

O autoclismo

2019.11.04 23:10 PeruActivo O autoclismo

Estávamos em Manila e tínhamos decidido ir ao Chica Menuda, um restaurante de estilo espanhol, com empregados trajados a rigor, com todos os apetrechos e apeiros distintivos da mais pura hispanidade andaluza.
As serventes saraquitavam num vaivém atarefado, pautado pelo ruge-ruge vermelho vivo dos folhos dos seus vestidos de sevilhana. Uma rosa vermelha, encarrapitada nos longos e lustrosos cabelos negros apanhados de uma delas, cumprimentou-nos sorridente, quando se aproximou da mesa para nos perguntar o que íamos tomar. E um garrido fajuto, desenhado à pressa no canto do lábio superior, encarquilhou-se de dúvidas e hesitações, quando nos tentou explicar num inglês mal-amanhado, e depois num espanhol pior ainda, o conteúdo da ementa.
O repasto foi chegando em grandes e repimpadas travessas. A refeição transcorreu pela noite dentro. As copadas de vinho cantavam de alegres e sucediam-se umas às outras de enfiada. A animada cavaqueira transbordava da mesa, em estrondosas barrigadas de riso ou nos exaltados arroubos de emoção que atonavam na voz dos que contavam desbragadas pataratas românticas ou ousados relatos das suas aventuras rocambolescas pelo sudeste asiático.
Aos poucos e poucos, a noite foi avançando. A lufa-lufa de sevilhanas e de homens de chapéu de aba e jaquetão negros, a estugar pelas coxias das mesas amainou. O restaurante começou aos poucos esvaziar-se. A animação da conversa serenou-se naturalmente e o ambiente adquiriu um natural estado de acalmia divertida, mas ronceira. E eis senão que, depois daquele opíparo banquete, de proporções dignas de um festim romano, senti o chamamento da natureza a roncar dentro de mim. Para poupar os meus convivas aos nada sedutores borborigmos que me tamborilavam no bombo intestinal, escapuli-me de mansinho, rumo ao trono latrinário.
Serpenteio por entre as mesas, de nádegas apertadas e passos curtos. Passo por um servente, que me faz um cumprimento baixando a aba do chapéu e que, depois de um aflitivo impasse linguístico em que lhe tento perguntar pelo WC ou os Lavabos e ele me encara com interrogações franzidas nos olhos, lá me indicou a casa de banho, ao fundo da sala, por um vão de escadas acima.
Entro pela porta que diz caballeros, cifrada com a silhueta de um toureiro. O interior é sumário. Resume-se a uma sanita, com um autoclismo de puxar, que pende do tecto por uma corrente e se remata numa esfera dura de plástico negro na ponta. Não me ponho com grandes contemplações, levanto o tampo, sento-me e ponho fim àquele aperto.
Depois de estar despachado o serviço, quando vou a puxar pela corrente do autoclismo, já a contar com o alívio espiritual do ruído da descarga, fico só com o inquietante tlaque mecânico da alavanca interna do autoclismo a bater no sifão e mais nada. O autoclismo não descarrega.
Torno a puxar da corrente com mais força. Nada.
Dou uma série de puxões. Os elos da corrente chocalham a bater uns nos outros, a alavanca do mecanismo martela meia dúzia de tlaques, mas o refluxo da água, nem vê-lo nem ouvi-lo.
Fico pasmo a olhar para a sanita, para o poio flutuante que me encara com uma impertinência indignada. “E agora?” penso de mim para mim.
Vou-me embora? Deixo isto assim?” relanceio para a porta.
Não, não posso fazer isso. Está cá pouca gente, eles vão saber logo que fui eu… Além disso, tu tens essa cara-podre de sair lá fora, como se não fosse nada contigo? És uma dessas pessoas?
Inspiro fundo, para aclarar as ideias, mas o miasma fétido inunda-me as narinas e traz-me lágrimas aos olhos.
Tenho de avisar alguém, para “tratar” disto.
Saio da casa de banho e, à boca das escadas, procuro avistar algum dos empregados. O mesmo homem que me indicara a casa-de-banho ainda estava ali postado, no mesmo sítio de antes. Envergonhadamente, aproximo-me dele tripetrepe. Toco-lhe no ombro e, com uma expressão compungida, incapaz de o encarar, balbucio qualquer coisa em inglês para lhe dizer que o autoclismo não funciona. O homem não me entende. Com um sorriso solicito, torna a apontar-me lá para cima e diz-me num sotaque cerrado «yes, toilet», enquanto acena vivamente. Tento explicar-lhe que não é isso. Já não estou à procura do quarto-de-banho. A expressão do homem desfaz-se em total desentendimento. Tento explicar-lhe por gestos, mas os meus dotes de mimo são deploráveis. De maneira que parei a meio de uma rebuscada explicação, em que estava a fazer com a mão esquerda um punho aberto (em forma de copo) – neste caso a sanita- e com dois dedos da mão direita que entravam e saiam do copo/sanita – a tentar simbolizar a água do autoclismo. Até porque o homem estava claramente a tentar conter o riso.
Pedi-lhe então por gestos que me seguisse até ao quarto-de-banho, para lhe poder mostrar o problema. Mas aí o homem até deu um passo para trás, de olhos arregalados e cenho cerrado, como se lhe tivesse acabado de fazer uma proposta obscena. «No, no» respondeu-me, gesticulando de dedo espetado, enérgica e vivamente. Apontou-me ainda para uma das colegas, vestida de negro, advertindo-me, porém, com um gatimanho do polegar a esfregar no indicador e no dedo do meio estendidos, que teria de haver alguma espécie de contrapartida monetária para aquilo que ele achava eu estava a propor.
Fiz que «não» veementemente, que «não era isso». E depois de muita insistência, lá consegui convencer o homem a acompanhar-me, a contragosto, ao interior do quarto-de-banho dos homens. Engoli em seco e, com o dedo esticado, apontei para o interior da sanita. O poio boiante cumprimentou o empregado com uma cara de poucos amigos. O homem encarou-me com uma mescla surrealista de horror, surpresa e indignação. No trejeito que lhe ocupou o rosto algo exclamava «não me pagam que chegue para aturar estas merdas». Depois, teatralmente assinalei o autoclismo, como uma menina de um concurso de televisão é capaz de passear as mãos em redor de uma montra de prémios.
E quando fui finalmente puxar da corrente, para lhe explicar a avaria, uma descarga de água jorrou pelo sifão e fez desaparecer o poio pelo cano abaixo.
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